SUSTENTABILIDADE PARA OS POVOS E COMUNIDADES
TRADICIONAIS DE MATRIZ AFRICANA
RESUMO
O presente
trabalho tende a mostrar a realidade dos Povos e Comunidades Tradicionais de
Matriz Africana e sua relação com os recursos naturais existentes no planeta,
tanto de fauna como de flora. Traz uma exposição da trajetória destes Povos da
África para o Brasil, através do crime da escravidão ocorrido entre os séculos,
XVI, XVII e XVIII. O Povo Banto, Fon e Yorùbá foram trazidos para as terras
Brasileiras em forma de escravos e em dias atuais são reconhecidos pelo Decreto
Federal número 6.040 de 07 de fevereiro de 2007, como Povos Tradicionais de
Matriz Africana, sendo esses responsáveis pelos espaços de resistência da
África para o Brasil, (os Terreiros). Apresentamos também a degradação ambiental
planetária, os impactos causados pela poluição e as implicações diretas na
Tradição de Matriz Africana. Destaca-se a realidade destes Povos para com a natureza,
as atividades litúrgicas, culturais e sociais. Enfatizando a grande importância
da preservação da biodiversidade para a manutenção destes cultos Tradicionais
no Brasil.
INTRODUÇÃO
Vários aspectos culturais trazidos
pelos Povos Tradicionais de Matriz Africana têm grandiosas relações com o meio
natural. Isso pode ser observado em seus rituais Tradicionais e comemorações
que estabelecem fortes ligações com Divindades (Òrìṣà, Vodun e Nkisè) que representam aspectos naturais,
como rios, plantas, lagos, animais e com a Terra.
Como esses componentes do meio
ambiente são primordiais para a execução dos rituais sagrados e festejos
torna-se imprescindível que estes componentes estejam em bom estado de
preservação garantindo uma boa assimilação do indivíduo do culto à Divindade a
qual esteja louvando, já que o material em questão estaria diretamente em
contato com ambos.
Sob essa perspectiva o paradigma da
Sustentabilidade encaixa-se obrigatoriamente no contexto das atividades desses
Povos, pois mais do que a sociedade comum brasileira, os Povos Tradicionais de
Matriz Africana necessitam manter os recursos naturais em à sua volta, no
sentido de manter costumes e tradições que os identifica como Povo. Identidade
essa reconhecida pelo Decreto Federal nº 6.040 de 07 de fevereiro de 2007.
Ao deparar-se com a massiva onda de
impactos ambientais em escala planetária, como a utilização de recursos
naturais em aceleração, descaso quanto às deposições de materiais tóxicos em
rios e lagos e no solo, destruição de vegetação para o aumento do âmbito
urbano, entre outros, essas Comunidades clamam por meios que promovam não só a
recuperação desses componentes naturais como também uma forma de resistir à
pressões socioeconômicas que acaba por distanciá-los de uma cultura harmônica
ao meio ambiente.
Esses grupos são alvo também de
racismo ambiental onde não há preocupação ou descaso quanto a seu modo de vida
e cultura permitindo que o meio ao qual necessitam para suas atividades seja
prejudicado por industrias e empresas sem haver politicas mitigatórias. Além de sofrerem preconceitos, desrespeito e
perseguições.
Ações
interventivas são necessárias para a manutenção desses grupos e seu meio de
vida. Para este trabalho foram feitas entrevistas de modo a compreender a
situação de três Comunidades de Matriz Africana (Banto, Fon e Yorùbá) e com
isso observar aspectos sociais, econômicos e ambientais aos quais estão
submetidos e assim ter um parâmetro ao qual se basear para futuras ações de
apoio e recuperação de aspectos e Tradições tão sensíveis ao contexto atual da
sociedade de consumo brasileira.
2 QUEM SÃO OS POVOS E
COMUNIDADES TRADICIONAIS DE MATRIZ AFRICANA?
2.1 Trajetória histórica
Os Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana
autos reconhecem como unidades de resistências da África no Brasil.
Os membros das Comunidades titulam esses espaços
como representação africana dentro das terras do Estado Brasileiro. Sendo assim
cada “Terreiro” no Brasil como representatividade dos reinos africanos.
Essas Comunidades prestam serviços sociais e de
saúde, realizam ações de acolhimentos, combate a pobreza, defendem a soberania
alimentar, a soberania cultural, étnica e racial do seu povo.
Em meados do século XVI, XVII e XVIII às terras
brasileiras receberam cerca de cinco (05) milhões de africanos e africanas
através da diáspora histórica.
Trouxeram nos porões dos navios negreiros mais do
que mão-de-obra escrava, trouxeram cultura, tradicionalidade, tecnologia
agrícola e da mineração e o mais esplêndido de tudo, a sua teologia e
cosmologia litúrgica de viver e ver a natureza.
Esses Povos são originários de diversas regiões da
África que compreende atualmente os países de Benin, Togo, Moçambique, Angola,
Congo, Guiné, Gana, Nigéria, Senegal entre outros. Esses Povos em terras
africanas tinham suas tradições culturais milenares, possuíam línguas próprias,
a maioria eram civilizações prósperas com reis e rainhas e grandes impérios.
Realidade que mudou na chegada ao novo mundo. Foram
misturados estrategicamente, as tribos rivais que falavam línguas diferentes
nos porões dos navios, eram mescladas em um único grupo “os nãos humanos”. As
famílias foram separadas, reis e rainhas foram mortos.
No novo mundo, além do forçado trabalho nas
fazendas, mineração e nas cidades, receberam novos nomes baseado na crença
dominante. No continente africano esses homens e mulheres tinham em adoração e
louvor à divindade protetora da aldeia. Uma veneração coletiva, pois em terras
africanas a divindade é coletiva, protege toda a aldeia.
No novo mundo tiveram que individualiza-se, sendo a
divindade um elemento individual, um protetor ou anjo da guarda, mudando assim
toda a forma do culto, cultura, língua e tradicionalidade.
2.2 Conceitos
Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana
são grupos reconhecidos pelo Decreto Federal nº 6.040 de 07 de fevereiro de
2007, (Política Nacional de
Desenvolvimento Sustentável dos Povos e Comunidades Tradicionais). Que perfilham os mesmo
como:
Grupos culturalmente
diferenciados e que se reconhecem como tais, que possuem formas próprias de
organização social, que ocupam e usam territórios e recursos naturais como
condição para sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e
econômica, utilizando conhecimentos, inovações e práticas gerados e
transmitidos pela tradição. (BRASIL, 2007).
A convenção da Organização Internacional do
Trabalho – OIT (2011) caracteriza “povos”, como “segmentos nacionais com
identidade e organização próprias, cosmovisão específica e relação especial com
a terra que habitam”.
Segundo o Ministério do
Desenvolvimento Social e Combate à Fome em seu Guia de cadastramento de grupos,
(2012). Matriz Africana.
São tradições
oriundas do continente africano, trazidas pelas pessoas traficadas para o
Brasil, e que pertenciam a diversos grupos étnicos. O primeiro grupo africano a
chegar ao Brasil foi o povo Bantu, oriundo das regiões em que atualmente se
localizam Moçambique, Angola e Congo. Depois, foram trazidos outros povos, oriundos
do lado Ocidental da África (Sudão, Nigéria e Benin), principalmente, os
Iorubás (denominados Nagôs ou Ketus) e os Fon. Assim, o termo “matriz africana”
indica que esses grupos étnicos vieram de várias partes da África. (BRASIL,
2012).
Esses grupos Tradicionais que tem como baldrame de
fé as divindades citadas de Òrìṣà (Orixá), Vodun (Vôdun) e Nkisè (Inkisse)
todas essas relacionadas a uma forma ou elemento natural pertencente a um
panteão, família, elemento natural ou função correspondente no planeta para com
os homens.
Tais divindades são subordinadas a uma divindade
suprema (Deus supremo) que varia o nome de acordo com cada etnia Tradicional
dividida.
Assim Mawu-Lisa
para os Fons ou Djedje (Jeje), N’zambi Mpungu (Zambi) para os Bantos
(Angolanos) e Òlòdùmàrè para os Yorùbás.
Deste modo, os Povos e Comunidades Tradicionais de
Matriz Africana são populações étnicas monoteístas, acreditam em um único Deus
supremo e os Òrìṣàs, Voduns ou Nkisès são divindades menores ligadas
diretamente aos homens.
A chegada desses grupos foi dividida em três longos
séculos. Os Bantos sudaneses foram os primeiros a chegarem, depois os Fons do
reino do Dahome e por ultimo os Yorùbás. Somando assim a trajetória cultural e
histórica dos países do novo mundo, Brasil, Cuba, Estados Unidos entre outros.
3 A RELAÇÃO DO MEIO NATURAL
COM OS POVOS E COMUNIDADES TRADICIONAIS DE MATRIZ AFRICANA
3.1 A crise ambiental
O culto litúrgico dos Povos e Comunidades
Tradicionais de Matriz Africana vem da união de vários elementos, formas,
cores, sons, biomas e animais sagrados. Desta forma, unindo uma só energia
cósmica elementar para o processo vital desses Povos ou Comunidades.
A relação com a natureza e destacada pelo Decreto
Federal 6.040 de 07 de fevereiro de 2007 [...] “ocupam e usam territórios e
recursos naturais como condição para sua reprodução cultural, social,
religiosa, ancestral e econômica”.
Para a sustentação do
culto, iniciação de adeptos, ofertas de oferendas e eventos festivos, tem-se
como foco primordial os elementos da natureza tais como: os rios, a costa
marítima, os pantanais ou mangues, as florestas, as folhas, montanhas, serras e
toda a forma de natureza ocupada pelo homem.
Como o planeta Terra
vive em vias de crise ambiental, imagina-se o desaparecimento total de recursos
naturais saudáveis na esfera terrestre, ocupada pela grande massa populacional.
A humanidade consome
cerca de 25% de recursos naturais a mais da renovação do planeta, não tendo um
equilíbrio de consumo, a população planetária cresce, em que a cada segundo
nasce três habitantes no planeta. A população terráquea está crescendo em cem
milhões de pessoas por ano, chegando hoje a ter cerca de sete bilhões de
habitantes. Nas próximas décadas teremos mais de um bilhão de novos habitantes.
(ARAUJO, 2010).
Tem-se uma média diária que 2 milhões de toneladas
de lixo, distribuídos em resíduos domiciliares, comerciais e industriais são
gerados pela população do mundo. Cada brasileiro produz um 1 kg de lixo por
dia, provocando uma produção brasileira de 170 mil toneladas de lixo e
vulneravelmente 76% é despejado em lixões a céu aberto nas grandes cidades.
Em maio de 2010 o
Jornal Tribuna do Norte, publico reportagem que, mais de 20,8 mil hectares de
Mata Atlântica – o equivalente a 130 Parques do Ibirapuera – foram desmatados
entre 2008 e 2010 no Brasil. Toda esta devastação nos dias atuais vem
aumentando em dados preocupantes e alarmantes.
Um importante recurso natural vem
desaparecendo de forma inquietante, o uso dos recursos hídricos, são divididos
globalmente em 69% para a atividade agrícola, 23% para as indústrias e apenas
8% em usos domésticos. Dados assombrosos, pois as atividades industrial e
agrícola não reaproveitam o recurso da água conforme determina a necessidade do
planeta Terra.
Mais de 70% da superfície da Terra é composta pelos
oceanos e esses espaços biológicos já habitam os maiores animais do planeta.
Mais de bilhões de anos que a vida dos oceanos vem contribuindo na vida de toda
a esfera.
A pesca industrial vem acabando com a população de
grandes peixes no mar, mais de 90% destes animais desapareceram do oceano, tais
como: atum, marlim e tubarões. (ONU, 2012).
Os estoques pesqueiros em algumas regiões estão
diminuindo altamente. Outro ponto para a degradação dos oceanos é a poluição
provocadas pelas cidades, as grandes embarcações e exploração de petróleo em
alta escala.
A especulação imobiliária em ritmo acelerado vem
destruindo zonas costeiras, estuários, manguezais e zonas úmidas em todo o
mundo. Sem uma noção de preservação de alguns países o maior bioma do planeta
“o mar”, tem o risco de perder suas áreas de reprodução da fauna marinha e refúgios
da vida silvestres.
A destruição dos manguezais (berçário da vida
marítima) para a expansão da construção civil ou criação de viveiros, salinas e
outros empreendimentos vem provocando um distúrbio na vida, pois um simples
estuário pode abrigar e mante uma grande diversidade de aves, mamíferos
terrestres e peixes.
3.2 As ameaças provocadas pela poluição e os impactos ambientais na área
urbana
Nos rituais de iniciação realizados pelos Povos
Tradicionais de Matriz Africana às folhas “são sagradas”, algo extremamente
obrigatório. Tal necessidade destaca-se nos versos do poema “Salve às folhas”
de Gerônimo Santana e Ildásio Tavares,
“sem folhas não têm sonhos,
sem folhas não têm vida, sem folhas não têm nada”.
O poema de Gerônimo Santana e Ildásio Tavares
avulta a divindade das folhas, (Agué, Òssànha ou Katendè) como o guardião dos
segredos da flora.
Para a Tradicionalidade
essa divindade é responsável por liberar a energia de cada vegetal, cada
essência tem uma função especial e detalhada para o culto.
Existindo assim, folhas
para aproximar bons fluidos como o amor, sorte econômica e atração afrodisíaca
e outros encantos positivos. Mais também se tem folhas que afastam às energias
negativas, como doenças e/ou até mesmo a morte pode ser afastada por
determinadas folhas. Porem o segredo de toda essa dimensão magica pertence
apenas a uma divindade, o Vodun Agué para os Fons, Nkise Katendè para os Bantos
e/ou Òrìṣà Òssànha para os Yorùbás.
Um dito popular dos antigos Yorùbás reforça a
obrigatoriedade das folhas nos ritos Tradicionais: “Kò si ewe, kò si Òrìṣà” (não há folhas, não há Òrìṣà). Expressando
a fundamentação do invocar, chamar ou despertar as outras divindades nos
noviços. Sendo algo de extrema importância. Pois cada Vodun, Òrìṣá ou Nkise tem
uma folha em particular aos seus atributos naturais.
Sem a preservação ou sustentabilidade de zonas de
proteção, unidades de conservação ou áreas de proteção permanente que deem
ressalva a espécies de flora, esses Povos não terão como realizar os cultos
litúrgicos.
Se as florestas desaparecerem por total do nosso
meio, poderemos afirmar um desaparecimento do culto aos Voduns, Òrìṣàs ou
Nkises, por mais que tenha-se bosques artificiais, a essência natural dos
biomas que transmitem a essência natural do àṣe (axé) as Divindades não será igualmente a mesma.
Sabe-se que não tem
como ter adoração às divindades hidrolátricas ou aquáticas (Òṣun, Aziri ou
Ndandalunda) deusas das águas, com uma coleção de rios poluídos. Será que tais
divindades, recompensariam uma oferenda em rios poluídos, com peixes mortos e
esgotos a céu aberto?
A água encontra-se
representada por diversos panteões, famílias ou grupos, divididos nos três
troncos linguísticos e litúrgicos encontrados no Brasil.
Para os Fons ou Djedjes
(Jejes) temos Aziri, Vodun das águas doces. Òṣun dos Yorùbás é a Òrìṣá feminina
dos rios, do ouro, do jogo de búzios, e do amor. Para os Bantos (povo de
Angola) Ndandalunda é a senhora da riqueza ligada ao nascimento e água doce.
A frase famosa do poeta inglês W. H. Auden que disse
“muitas pessoas viveram sem amor, mas nenhuma sem água” reforça a importância
desse elemento vital para nossas vidas.
Nos ritos tradicionais à água tem um papel importante,
pois a mesma sendo ferramenta de defesa, caminho, invocação e essencialidade.
Água doce limpa, apropriada e em quantidade
adequada e de vital importância para a sobrevivência de todos os organismos
vivos, bem como para o funcionamento adequado de ecossistemas, comunidades e
economias. Contudo, a qualidade dos recursos hídricos mundiais esta sob ameaça
crescente à medida que aumentam as populações humanas e se expandem as
atividades industriais e agrícolas, em um cenário em que as mudanças climáticas
poderão provocar grandes alterações no ciclo hidrológico. Água de baixa qualidade
põe em risco a saúde humana e dos ecossistemas, reduz a disponibilidade de água
potável e de recursos hídricos próprios para outras finalidades, limita a
produtividade econômica e diminui as oportunidades de desenvolvimento. (BRASIL,
2011).
As
fontes hídricas estão sendo ameaçadas de forma alarmante, por poluentes no
solo, como o lixo doméstico, lixo industrial, lixo hospitalar e metais
pesados.
Esses
poluentes chegam até os aquíferos e rios que abastecem as grandes cidades,
provocando assim uma perda da essência mágica e vital do recurso.
Para a Tradicionalidade de Matriz Africana, o uso da água
não pode ser limitado ou cessado de forma alguma. Uma grande ameaça, já que as
cidades vivem processos de cornubação alarmante, limitando o uso da água (racionamento)
para com a população que cresce.
A
água das grandes cidades está misturada a grande quantidade de nitrato,
componentes químicos, coliformes fecais e metais pesados provocados pela
elevada poluição dos aquíferos subterrâneos e rios.
A
falta de saneamento básico, coleta inadequada do lixo e falta de tratamento da
água utilizada pela população, são fatores que favorecem a poluição desse
elemento.
Uma
grande ameaça para os Povos e Comunidades Tradicionais de Matriz Africana em
relação à água, e que, a mesma chega às cidades inapta para o consumo humano, e
para às práticas tradicionais e litúrgicas também não sendo apropriada, tendo
um elevado índice de poluição.
Para
as Comunidades da região rural a poluição submete-se a agricultura desordenada,
assoreamento de rios, erosão do solo e principalmente o uso elevado de
agrotóxicos.
Sendo
assim em anos seguintes a utilização da água, elemento fundamental para a
tradicionalidade estará ameaçada pela grande poluição do meio natural,
provocado pelo homem.
Todos
os templos sagrados de Matriz Africana contêm em suas dependências recipientes
com água, lago natural ou artificial, toneis com folhas maceradas e jarras nas
entradas para uma defesa espiritual.
Esse
elemento natural manuseado ou utilizado de forma desdourada, conspurcada ou
poluída sem um teor natural para que invoque a divinização, não tem
proficuidade para o culto, pois à água estar presente em todos os ritos
sagrados e a mesma precisa ser saudável e adequada e assim ter energia, força
imaterial chamada pelos Povos Tradicionais de àṣe, nguzu ou àdǎn.
(lê-se: axé, guzu ou adaãn).
Onde há
desmatamento e poluição não há orixá. E sem os orixás, a vida humana empobrece
e se descontrola. Nesse processo especulativo (existente em todas as cidades
foco do Inventário), as roças, antes parecidas com pequenas chácaras, vão se
reduzindo à dimensão de pequenos lotes urbanos, gerando como consequência uma
série de dificuldades em relação à diversidade de itens que são necessários
para as práticas rituais das diversas nações de candomblé. (BRASIL, 2011).
Com a construção civil em ritmo acelerado elevando
a urbanização, aumentando o número de habitantes das grandes cidades provocando
metropolizações em diversas regiões do planeta, os impactos ao solo, a utilização
da água e a poluição da atmosfera passam a ser mais elevados. Na década de 50
no Brasil viviam apenas 36,1% de brasileiros nas cidades, em 2002 o número
aumentou para 82% (Guia Cidadão Sustentável, 2008).
As Comunidades
Tradicionais de Matriz Africanas vivem sufocadas pela urbanização, crimes
ambientais, poluições, crescimento desordenado e modernização das cidades,
trazendo assim um prejuízo destacável para a Tradicionalidade. Os espaços
Sagrados necessitam de um “banho de natureza”, nas cidades espaços verdes e
rios são algo de extrema raridade. As Comunidades do Povo Fon ou Djèdjè (Jeje)
e as demais carecem de grandes espaços, para o cultivo de ervas, árvores
sagradas, quartos sagrados e até mesmo um lago.
Para essa realidade
“espacial” ou arquitetônica seria em proposta para o desenvolvimento dessa
Comunidade o zoneamento rural do município. Onde podemos encontra áreas verdes
e alguns riachos. Porem, a grande ameaça é a cornubação (processo de
crescimento das cidades), deixando a realidade natural do espaço ou zoneamento
rural totalmente transformado.
Uma das grandes ameaças
para com as Comunidades Tradicionais de Matriz Africana são as perdas de
espaços naturais que antes lhe pertenciam e hoje são esmagados pelas cidades.
Isso provocando uma serie de transtornos, pois na realidade o culto Tradicional
de Matriz Africana não coincide com os problemas das cidades. Tais como:
poluição atmosférica, conflitos sociais, poluição sonora provocada pelo
transito nas avenidas, intolerância e racismo ambiental provocados pelos
moradores do entorno.
É insuportável para os líderes de
Comunidades Tradicionais de Matriz Africana, realizarem seus cultos de
iniciação com uma serie de poluentes e perturbações provocados pelo chamado
“ruídos das cidades”.
3.3 Insegurança Alimentar e Nutricional
Com bases nos padrões
da modernidade e em leis de proteção animal, esses Povos vivem uma série de fator
de insegurança alimentar, pois suas práticas alimentares são baseadas em suas
crenças. Para os de Matriz Africana, a alimentação torna-se sagrada ao ser
compartilhada com as Divindades. Os alimentos como: grãos, frutas, legumes, raízes,
caules, folhas e carnes de animais precisam estar altamente saudáveis. Os
agrotóxicos presentes nos legumes e frutas deixam esses inaptos para o consumo
junto as Divindades. Sendo algo extremamente serio problemático e causador de
doenças.
Outro ponto de
Insegurança Alimentar é a perseguição ao sacro oficio de amolar os animais
sagrados. Para esses Povos os alimentos como carnes de animais, tem que ser
preparados dentro da própria Comunidade Tradicional e a amolação também é realizada
nas mesmas. Segundo os líderes, os animais são rezados, existe um serie de
cânticos solicitando a permissão da natureza e dos Deuses, para que assim, seja
realizado o sacrifício sagrado das aves e caprinos.
As leis federais de
proteção as praticas religiosas não são necessárias para uma defesas desse
exercício alimentar Tradicional. Em algumas cidades brasileiras existem leis
municipal que proíbem a pratica de sacrifícios de animais em rituais
religiosos. Essas leis são extremamente preconceituosas e racistas. A
constitucionalidade desses instrumentos jurídicos seriam viáveis, se as mesmas
forem focadas as práticas de maus tratos a animais domésticos. Os Povos
Tradicionais de Matriz Africana não realizam maus-tratos a animais, e sim, sua
forma Tradicional de alimentar-se, destaca-se com a amolação, preparo e consumo
dentro da própria Comunidade.
Os alimentos são
compartilhados com todos os membros da “Casa de Santo”. Existe uma hierarquia
na alimentação, tendo determinados membros, que é responsável pela cozinha,
pela amolação, e pelos preparos de banhos e ervas. Todos os passos da Tradição
de Matriz Africana solicita um cargo especial.
3.4 O Racismo Ambiental Vivenciado
Com o crescimento
populacional das cidades, crescem-se os problemas urbanos e com eles as
especulações exprimem as minorias sociais e os pequenos grupos, esses são
marginalizados e exprimidos socialmente. A autora Tania Pacheco (2007),
descreve essas ações como “Racismo Ambiental”, que são às
injustiças sociais e ambientais que recaem de forma implacável sobre grupos
étnicos vulnerabilizados e sobre outras comunidades, discriminadas por sua
origem ou cor. (PACHECO, 2007).
Os Povos e Comunidades
Tradicionais de Matriz Africana oriundos dos Africanos, que foram transformados
em escravos e esses depois de 300 anos foram jogados nas vias da exclusão
social das grandes cidades, ainda vivem os retratos das proibições de sua
cultura e Tradição.
O povo negro viveu
séculos encarcerados nas terras brasileiras, hoje a herança da diáspora
persegue negativamente os descendentes de africanos que foram transformados em
“não humanos”.
Em todo o País, a chamada libertação dos
escravos atirou-os da senzala onde viviam e da casa grande ou dos engenhos onde
serviam para o nada. Sem qualquer política voltada para a criação de
oportunidades de trabalho e de moradia, de acesso aos chamados serviços
públicos e a qualquer condição de cidadania, o negro seria de diferentes formas
desterritorializado. A sociedade que durante séculos os usara não os queria. De
alguma forma ainda os toleraria, a eles relegando serviços por muitos
considerados “indignos dos brancos”. Mas, à medida que a “modernidade”
chegasse, novas soluções seriam encontradas para que esses serviços menores
continuassem a ser realizados, quando necessários, mas mantendo seus
“prestadores” tanto quanto possível à distância. (PACHECO. 2008).
Nas cidades, esses
foram colocados em uma posição social antes não vista, pois eram “escravos”, e
a partir do alvedrio, passaram a ser chamados de os “não humanos”. Um grupo
populacional que antes não tinham representatividade alguma na esfera politica
e social passam a ser visto como os problemas sociais das cidades.
Pois os mesmo careciam
de empregos, saúde, educação e o mais importante, manter suas Tradições
africana de forma livre. Algo extremamente complexo e difícil de ser adotado
pelos “dominadores” do poder. Não sendo aceitos nos centros das cidades foram
impulsionados as “favelas”, e esses espaços sim, não tinham nenhuma forma de
estrutura social para sobrevivência.
A não aceitação das
crenças dos negros e negras e mais que uma questão de diferenças culturais. É
uma não aceitação de uma cultura do negro, que viveu na condição de escravo
visto por tempos como, não humano, “sem alma”.
Nas cidades não
aceita-se as condições de uma crença ou cultura africana por herança, pois a
África é um continente de estrema pobreza e composto por negros e negras.
A distribuição de
estrutura urbana e politicas publicas são realizadas para com os mais
favorecidos, neste caso, as classes dominantes são as beneficiadas com as
politicas publicas de segurança, saúde, educação, moradias e mobilidade. Esses
programas são realizados em áreas urbanas onde concentra a população “branca” e
tendo uma carência total nas áreas suburbanas, onde a maioria dos residentes
são negros e negras. Neste caso os pertencentes de Matriz Africana oriundos da
diáspora, não são visto pelos dominadores de poder como grupo de prioridade.
Fazendo das cidades um local de não inclusão e divisor de classes e culturas.
Além das questões
ambientais, precisamos mais que nunca aprender a conviver com a diversidade.
Mais que isso, claro, precisamos aprender a valorizar a diversidade. A vida é
um inferno para quem odei a diversidade e estes acabam fazendo da vida dos
outros um inferno também. A intolerância é um veneno tão perigoso para a saúde
como a poluição. (BULGARELLI, 2012).
Outro fator é a não aceitação
da diversidade, o Brasil, país de muitas culturas, ainda retarda nas questões
de respeitos e igualdade racial de gênero e raça. O Estatuto da Igualdade
Racial (Lei Federal nº 12.288, de 20 de julho de 2010), em seu Art. 1º
paragrafo II define como, desigualdade racial “toda situação injustificada de
diferenciação de acesso e fruição de bens, serviços e oportunidades, nas
esferas publicas e privadas, em virtude de raça, cor, descendência ou origem
nacional ou étnica”.
As cidades crescem, e
as especulações imobiliárias são contra grupos Tradicionais pertencentes à
municipalidade. Pois o capital de lucro esmaga as culturas, para dar espaço ao
“desenvolvimento”, deixando claro que a ordem do estado é o progresso e não a
igualdade.
O modelo familiar capitalista
para as vendas de imóveis modernos das grandes cidades é sempre de famílias
brancas de poder aquisitivo maior. O sistema imobiliário desenha-se sempre para
os “burgueses” do sistema e não mostrando-se programas de inclusão para
famílias negras e pobres. Deixa-se claro que os grandes empreendimentos
imobiliários, que trazem com sigo os parques, espaços poli esportivos e áreas
verdes, são destinados à maioria capitalista esbranquiçada com padrões europeu.
Deixando claro um apartheid social brasileiro.
4 A REALIDADE DE TRÊS
COMUNIDADES TRADICIONAIS DE MATRIZ AFRICANA DA REGIÃO METROPOLITANA DE NATAL E
SUAS PRÁTICAS TRADICIONAIS E AMBIENTAIS
4.1 Comunidade do Povo
Banto – Casa do Benguê Ngola Djanga Ria Lembaranganga
A única Casa representante do Povo
Banto do estado do Rio Grande do Norte, a Casa do Benguê Ngola Djanga Ria
Lembaranganga, encontra-se localizada próximo a estrada da Praia de Genipabu, cidade
de Extremoz região Metropolitana de Natal. Foi fundada no ano de 1883 pelo Tata
Nkise Moisés Fernandes de Queirós que está com 59 anos de idade.
No momento, existem 25 iniciados
sendo 02 idosos, 88 jovens e 15 mulheres.
O Local se encontra numa zona rural, em rua de barro dentro de uma APA próximo a rios, praia, lagoas e mar com bastantes recursos naturais disponíveis.
O Local se encontra numa zona rural, em rua de barro dentro de uma APA próximo a rios, praia, lagoas e mar com bastantes recursos naturais disponíveis.
No local há coleta de lixo
domiciliar, não havendo coleta seletiva. Não há saneamento básico.
Existem 20 espécies de plantas no
local e algumas galinhas. Possui água encanada e tratada, com a utilização de
uma caixa-d’água, poço artesiano, e não há lagos para as práticas
tradicionais. Não há consumo de
alimentos produzidos pela própria comunidade.
Os
afluentes são depositados em fossas que nunca foram limpas. O lixo é levado
através de coleta regular. As folhas utilizadas são depositadas em outro terreno.
Não possui fogão à lenha.
A Comunidade tem uma cartilha de
ensinamentos, e desenvolve projetos no estado. Também participam de conselhos e
espaços de controle social, tais como: Confederação Brasileira de Candomblé de Angola
costumes e Tradições Bantu, Fórum Estadual de Segurança Alimentar e Nutricional
Sustentável para Povos de Matriz Africana – FONSANPOTMA-RN, Membros do Conselho
Estadual de religiosos de Matriz Africana no RN e Fórum de Educação.
Realizam mutirões de limpeza no
entorno com, dos alimentos comprados 50% são em feiras livres, e esses são
selecionados sem agrotóxicos. Há depósitos de oferendas na natureza e festas em
meio ao natural, praias e rios.
Tabela 1 –
Cobertura vegetal (árvores) da Casa do Benguê Ngola Djanga
Ria Lembaranganga
NOME VULGAR
|
NOME CIENTIFICO
|
DIVINDADE
|
FUNÇÃO
|
Nativo
|
Dracena
sp.
|
Matamba
|
Oferendas.
|
Acocô
|
Newboldia laevis
|
Todos
|
Obrigação de
Nkisi.
|
Aroeira
|
Família
Anancardiaceae
|
Mucumbi e Nzila
|
Egbos e banhos.
|
Pitanga
|
Eugenia uniflora
|
Gongobira
|
Egbos, banhos e
medicina.
|
cajueiro
|
Anacardium
occidentale
|
Nkisi
do Ktembo
|
Moradia deste
Nkise
|
São
Gonçalinho
|
Casearia sylvestris
|
Katende
|
Banhos e
decoração.
|
Fonte: Pesquisa de campo.
4.2 Comunidade do Povo
Djedje – Roça Djedje Ògbéòtògundá
Localizada no loteamento Jardim
Progresso, bairro de Nossa Senhora da Apresentação, região Norte de Natal, onde
concentra-se o maior número de comunidades de Terreiros do estado. A Roça
Djedje Ògbéòtògundá foi fundada na década de 1980 pela Yia Etemi Francisca
Luciene da Silva, 43 de idade, atual responsável pela Comunidade. Das casas
Djedje do estado do Rio Grande do Norte é a única que chega mais próximo aos
traços marcantes presentes nesse povo. Tais como a necessidade de manter um
lago nas dependências da Comunidade, um numero significativo de árvores
sagradas (àtiçàs), as paredes das casas de forma simples e o chão de alguns
quartos sagrados de barro cru ou apenas cimento queimado.
Até hoje foram iniciadas mais de 115
pessoas, dentre os quais 90% são negras. A área da propriedade é de 1.664 m² (um
mil seiscentos e sessenta e quatro metros quadrados) e de construções apenas 98
m² (noventa e oito metros quadrados) e está em escritura particular. Possui um salão principal, 02
quartos sagrados, 04 quartos no espaço aberto, uma sala de aula, uma cozinha
para os serviços tradicionais, 01 quarto circular na entrada e uma casa.
Localizada em área suburbana,
próxima à Zona de Proteção Ambiental 09 – ZPA-9, região Norte de Natal, em uma
rua carroçável, com residências em situação de risco social. Não há coleta de lixo, nem saneamento
básico. Encontra-se próxima à área industrial da cidade de Extremoz, onde
existem duas distribuidoras de gás de cozinha.
Sobre os aspectos biológicos da comunidade podemos encontrar solo de areia preta, com água encanada e tratada, possui caixa d’água. No Terreiro existe um lago para as práticas Tradicionais. Não há criação de animais, cultivo de hortas e nem produção de alimentos para consumo.
Sobre os aspectos biológicos da comunidade podemos encontrar solo de areia preta, com água encanada e tratada, possui caixa d’água. No Terreiro existe um lago para as práticas Tradicionais. Não há criação de animais, cultivo de hortas e nem produção de alimentos para consumo.
Os efluentes são depositados em
fossas simples que nunca foram limpas. O lixo é depositado em lixões a céu
aberto. As folhas das árvores são queimadas ou vão para o lixo. A comunidade
dispõe de um fogão a lenha.
Sobre as atividades educacionais,
ambientais ou sociais podemos encontrar palestras educativas, atividades para
prevenção de Doenças Sexualmente Transmissíveis - DST e alfabetização, além de
ensinamentos litúrgicos ou Tradicionais de acordo com as praticas e vivências. São
realizados projetos com parcerias do governo e Organização Não Governamental –
ONG, tais como distribuição de preservativos e palestras respectivamente.
A comunidade participa de espaços de
controle social como o Fórum Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional
Sustentável Para Povos Tradicionais de Matriz Africana - FONSANPOTMA, Comissão
de Terreiros do estado do Rio Grande do Norte, Conselho Estadual da Mulher e o
Conselho Estadual de Mulheres Negras. Essa Comunidade é a única no estado que
tem parceria com o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais
Renováveis - IBAMA
Para melhoria das questões
ambientais do entorno a comunidade promove a limpeza da localidade na forma de
mutirões e preservação de algumas árvores.
Pelo menor custo financeiro os
alimentos são comprados em feiras livres, mas não há preferencia por produtos
de empresas que respeitem o meio ambiente. Não há relação com cooperativas de
vendedores.
A comunidade confecciona seus
próprios produtos artesanais como roupas e adereços. Algumas ervas medicinais
são cultivadas, como o manjericão, tapete de Òṣàalá,
capacete de Ogum e peregum. Não acompanhamento de técnicos especializados.
Não há coleta seletiva e produção de
energia alternativa. As lâmpadas inutilizadas são descartadas no lixo. Em
extração de matéria prima, apenas extraem barro do solo e folhas das árvores
locais.
Sobre eventos tradicionais existem a
Festa de Yèmònjá, culto às águas de Òṣàalá e Culto
de homenagem ao dia 20 de novembro (Dia Internacional da Consciência Negra). A
comunidade preocupa-se com a compra de alimentos com agrotóxicos. Nas oferendas
realizadas os produtos são biodegradáveis tendo cuidado, também com as velas
acesas para que não queimem a mata. E ocorre o retorno dos sacos plásticos
utilizados. Os produtos orgânicos são
reaproveitados na alimentação tradicional.
Estão em processo de desenvolvimento
e manejo, árvores como ipê-branco, ògbi, seriguela, pinheiras, romãs, palmeiras
e uma diversidade de arbustos.
Tabela 2 –
Cobertura vegetal (árvores) da Roça Djedje Ògbéòtògundá.
NOME VULGAR
|
NOME
TRADICIONAL
|
NOME CIENTIFICO
|
DIVINDADE
|
FUNÇÃO
|
Mangueira
|
Igi mòngòrò
|
Manguifera
indica L.
|
Òrìṣa Ògùn
|
Banhos.
|
Jurema
|
Jurema Santa e
Sagrada
|
Pithecellobium Tortum.
|
Senhores
Mestres (Espíritos).
|
Banhos e pós
mágicos.
|
Gameleira Branca
|
Ìròkò
|
Ficus adhatodifolia
|
Òrìṣà Yròkò
|
Simbologia da
Divindade e totem.
|
Bambu
|
Igi dànkò
|
Phyllostachys
pubescens
|
Òrìṣa Dànkò
|
Afastar maus
espíritos.
|
Cajueiro
|
Não se aplica.
|
Anacardium
occidentale
|
Mestres da
Jurema
|
Descarregos.
|
Dendezeiro
|
Igi Ope
|
Elaeis
guineenses
|
Ògùm
|
Óleo com frutos, folhas ornamenta-ção
espiritual.
|
Akoko
|
Àkoko
|
Newboldia laevis Seem
|
Òsàla
|
Simbologia das
divindades, provocação de transe.
|
Nativo
|
Perengum
|
Dracena
|
Òsànhà, Òya e
Nanan
|
Banhos.
|
Amoreira
|
Ajobi
|
Rubus sp.
|
Osanha e Ososse
|
Adereços com os
galhos.
|
Carrapateira
branca
|
Ewe làrá
|
Ricinus communis L.
|
Èsu
|
Descarregos.
|
Fonte: Pesquisa de campo.
4.3 Comunidade do Povo Yorùbá – Ile Ilè –
Ife Aṣé Obaluayê
Situada na cidade de Extremoz região
metropolitana de Natal, a Comunidade Ile Ilè – Ife Àṣe Obaluayê pertencente ao
Povo Yorùbá, foi fundada no ano 1987 pelo Bàbàlòriṣà responsável o senhor
Marcelo Nunes Galvão que tem atualmente 52 anos de idade.
A comunidade é descendente do Ilè Àṣe
Sògbà Omin e Casa de Pai Adão em Pernambuco. A trajetória deste grupo
Tradicional iniciou-se no ano de 1982, em reuniões na antiga AV 06, na cidade
do Natal. No ano de 1987 com a necessidade de um local para as reuniões deu
inicio a construção do templo. Sendo assim o templo atual tem 19 anos de
construção.
Atualmente no Ile Ilè – Ife Àṣe
Obaluayê frequentam 67 adeptos, sendo 02 idosos, 02 portadores de necessidades
especiais, 25 são jovens e 29 mulheres. Em sua trajetória já iniciaram mais de 157
pessoas ao culto de Matriz Africana no estado.
Esse Terreiro está localizado na
zona rural no municipal de Extremoz, tendo no entorno rios, lagos, fazendas, um
linha férrea, área de Mata Atlântica e não possui grandes rodovias nas
proximidades. Com um total de 2.400 m² (dois mil e quatrocentos metros
quadrados) apenas 1.200 m² (um mil e duzentos metros quadrados) é destinado à
construção, onde temos 01 salão principal, 01 salão menor, 07 quartos sagrados
de iniciação, 01 cozinha, 01 casa, 05 banheiros e 01 quarto de dormi. Tudo de
paredes rebocadas e piso de cerâmicas.
Na rua em que a Comunidade está
inserida não possui coleta domiciliar de lixo, saneamento básico, pavimentação
e nem drenagem.
Nas dependências da Comunidade Ile
Ilè – Ife Àṣe Obaluayê, existe 22 espécies de árvores de pequeno a grade porte,
possuem criação de aves, tais como: galinhas, patos, gansos e pombos.
Além das árvores de grande, médio e
pequeno porte dessa Comunidade, destaca-se também a grande quantidade de ervas
medicinal e arbustos nativos de primeiro dossel.
Todas as folhas caídas das árvores
são destinadas a compostagem em espaço Tradicional. Realizam palestras sobre,
cidadania, diversidades, questões da atualidade e respeito ao meio ambiente. Os
mesmo possuem um caderno de ensinamentos anuais, voltados para as questões de
educação. Os materiais como roupas a adereços são confeccionados dentro da
Comunidade, além da realização de oficinas de reciclagem de materiais. Realizam
dois encontros anuais, denominados dia da cultura. Realizando avaliações e
planejamentos.
Os ensinamentos litúrgicos são
realizados com a vivencia dos membros. Não possuem nenhum projeto com parcerias
governamentais e não governamentais, são altos empreendedores de seus próprios
projetos, também não participam de nenhum conselho de espaço social ou relação
com o poder publico. Não realizam atividades de mutirões no entorno para
melhorar as questões ambientais. Estão promovendo planos para produção próprias
de alimentos e ervas. Um ato de empreendedorismo social. Porem os alimentos são
comprados em feiras livres e existe uma grande preocupação para não haver
comprar de alimentos com agrotóxico.
O manejo das espécies vegetais, não
possuem orientações de técnicos especializados, desenvolvem a coleta seletiva
do lixo e destinam corretamente as lâmpadas inaptas. Não realizam depósitos na
natureza. Todas as oferendas são depositadas em local Tradicional nas
dependências. As oferendas são compartilhadas com todos os membros da
Comunidade, apenas unas oferendas especificas são destinadas ao local de
deposito.
Tabela 3 – Cobertura vegetal (árvores) do Ile
Ilè – Ife Àṣe Obaluayê.
NOME VULGAR
|
NOME
TRADICIONAL
|
NOME CIENTIFICO
|
DIVINDADE
|
FUNÇÃO
|
Mangueira
|
Igi mòngòrò
|
Manguifera
indica L.
|
Òrìṣa Ògùn
|
Proteger a
casa.
|
Jurema
|
Jurema Santa e
Sagrada
|
Pithecellobium Tortum.
|
Senhores
Mestres (Espíritos).
|
Mestria dos
médios.
|
Gameleira
Branca
|
Ìròkò
|
Ficus adhatodifolia
|
Òrìṣà Yròkò
|
Patrono do
portal entre o céu e a terra.
|
Bambu
|
Igi dànkò
|
Phyllostachys
pubescens
|
Òrìṣa Dànkò
|
Receber os
ancestrais da Casa.
|
Cajueiro
|
Não se aplica.
|
Anacardium
occidentale
|
Não possui.
|
Não possui.
|
Akoko
|
Akòkò
|
Newboldia laevis Seem
|
Òrìṣa Akòkò
|
Titular o
sacerdote.
|
Nativo
|
Peregun
|
Dracena
|
Òrìṣa Pèrègùn
|
Oferecer a vida
ao individuo.
|
Carrapateira
branca
|
Ewe làrá
|
Ricinus communis L.
|
Òrìṣa Òbàlùàyé
|
Retirar as
doenças e utilizada como forro de prato.
|
Pinhão branco
|
Bòtúje
funfun
|
Jatropha
curcas
|
Òrìṣa Òṣàlà
|
Fechar as
feridas da pele.
|
Pinhão roxo
|
Bòtúje
pupá
|
Jatropha
gossypiifolia
|
Òrìṣa Òbàlùàyé
|
Banhos de
descarrego e rezas.
|
Coqueiro
|
Igi abà
|
Cocos nucifera
|
Òrìṣa Òṣossè
|
Alimentar a
cabeça.
|
Folha de prato
|
Ibá
Ògùn
|
Não encontrado.
|
Òrìṣa Òṣùn
|
Banhos e servir
comida.
|
Umbaúba
|
Àgbaó
|
Cecropia pachystachya
|
Òrìṣa Òya e
Òbàlùàyé
|
Receber as
oferendas desses Òrìṣas.
|
Pau-brasil
|
Ibiratitanga
|
Caesalpinia
echinata
|
Não possui.
|
Não possui.
|
Catanduva
|
Não
se aplica.
|
Piptadenia moniliformis
|
Não possui.
|
Não possui.
|
Catolé
|
Anajá-mirin
|
Attalea Humilis
|
Não possui.
|
Não possui.
|
Fonte: Pesquisa de campo.
OS ESPAÇOS DAS COMUNIDADES
TRADICIONAIS DE MATRIZ AFRICANA COMO REALIZADORES DE AÇÕES SOCIOAMBIENTAIS
Os Terreiros, como são chamados os templos
do Povo de Matriz Africana, surgiram no Brasil pós-período escravocrata. Esses
tempos são grandes focos de ensinamentos.
Para uma Sustentabilidade
e ativismo socioambiental, precisa-se da articulação de oficinas, como a
realização de aulas de Educação Ambiental, a reutilização (reciclagem) de
materiais não orgânicos como o metal, tecido, plástico, vidro e papel,
utilização de matérias biodegradáveis, economizando água, despachar apenas
matérias orgânicos no meio natural.
Uma serie de práticas e
costumes que elevariam a vida social destas Comunidades, para um lado mais
saudável e afortunado.
Os Povos e Comunidades
Tradicionais de Matriz Africana, dentro de suas dependências, necessitam
aperfeiçoar um local para cultivo e manejo de espécies de flora de pequeno
porte (ervas medicinais) utilizadas no culto.
Esse cultivo particular
garante a vida salutar das espécies, as ervas seriam cultivadas de maneira Tradicional
sem pesticidas e materiais químicos das grandes lavouras e dos
supermercados. A criação de aves e
caprinos e a reprodução dos mesmo, também destaca-se como algo fantasticamente
empreendedor, uma vez que as aves compradas em feiras ou mercados, geralmente
trazem doenças animais e parasitas. Um outro grande problema na questões dos
animais sagrados e que os mesmo estão sendo proibidos de ser comercializados. Além do fator empreendedor, a criação e manejo
das próprias aves e caprinos traz a questão da Segurança Alimentar, pois
sabe-se oque está sendo posto tanto para o alimento tanto para as Divindades.
É mais circunspecto
realizar rituais sacros com folhas do próprio espaço sagrado, oposto a compras
de folhas recheadas de toxinas dos grandes mercados ou feiras.
Outro aspecto marcante
para as atitudes ecológicas destas comunidades é a utilização de materiais
biodegradáveis para a realização de suas oferendas, que os ègbò (ébo) sejam
realizados com materiais que tenham um caráter ecológico, comprando produtos
que a fabricação ou elaboração tenha certificado ambiental.
No momento da entrega
de oferendas, depositar apenas os itens orgânicos e retornando para a
comunidade com os itens não orgânicos, como: garrafas de vidros, pratos,
sacolas plásticas entre outros.
Acreditando assim que,
as Divindades receberão apenas os conteúdos sacros e não os recipientes e
garrafas.
Um avanço acirrado é a
construção de células para o desenvolvimento de energia verde, assim consumindo
energia elétrica através da decomposição das oferendas orgânicas ofertadas aos
totens dentro da própria comunidade.
Cada tempo tem em
especial uma espécie de árvore para a veneração e adoração de Divindades
(árvore do Nkise Ktembo – Vodun Loko – Òrìsá Yròkò) a gameleira branca, Ficus adhatodifolia. Que é fundamental para a
dinâmica cósmica do Terreiro. Sendo assim os membros estabeleceriam um plano,
projeto ou cooperação juntamente aos órgãos de competência ambiental para a
preservação dessa espécie no meio natural, e criando um instrumento jurídico
para o reconhecimento e/ou tombamento dessa espécie nas áreas publicas das
cidades. A mesma foi utilizada pelos descendentes para substituir a árvore
nativa africana. Sendo nomeada como símbolo de resistência.
Outro ponto é a
produção de adubo orgânico com toda a decomposição dessas oferendas orgânicas.
O adubo será então utilizado nas plantações de ervas medicinais cultivadas
dentro da Comunidade. Assim garantindo um manejo sustentável para a produção de
folhas sagradas, tão essenciais para o culto.
Grupo de filhos das
Divindades dos mares e rios destacar-se-iam ao realizarem a limpeza dos mesmo. Grande
exemplo é no dia 02 de fevereiro, no lugar de fazer um festejo litúrgico na
praia, realizava-se um grande mutirão de limpeza. Mostrando assim um respeito
ao meio natural e uma grande preocupação com os locais sagrados de culto.
Hoje a participação
politica social em espaços de controle social, garante um protagonismo da
população. Necessita da participação de membros de Povos de Matriz Africana em
espaços como Conselho de Meio Ambiente, Saúde, Educação e Assistência Social,
deste modo, sendo nesses espaços onde as politicas publicas circulam e
definem-se.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Para que os Povos
Tradicionais possam ter espaços destinados às práticas culturais, religiosas ou
litúrgicas, esses devem promover, nutrir, manter e exercitar o movimento
ambientalista nas dependências do Terreiro e em torno de suas Comunidades.
Se uma comunidade
necessita de elementos naturais para a sua manutenção é a mesma quem tem que
mobiliza-se para a preservação de espaços naturais, sendo essa uma Comunidade
Tradicional ecologicamente equilibrada.
A sociedade civil
organizada, as instituições ambientalistas, os Povos Tradicionais e governos,
abrangem a missão de promover e elaborar as políticas publicas de preservação e
conservação de espaços destinados às práticas e cultos Tradicionais, para a
realização de atividades como a extração de matéria prima (folhas e sementes),
cultos públicos e despachos de oferendas.
Para isso a criação de
unidades de conservação com planos de manejos voltados a sustentabilidade da
tradicionalização é pertinente.
Sabemos que essa visão
é bastante polêmica e elevada, com necessidades de mobilização a nível nacional
e elaboração de leis que demorarias uma eternidade política.
Para que as Religiões
de Matrizes Africanas possam ter acesso aos bens naturais, bens esses tão
importantes para a adoração e louvação das Divindades, as mesmas devem
priorizar o zelo pela natureza que é fundamental para a cautela da vida no
planeta.
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principio e prática – 9. Ed. – São Paulo: Gaia, 2004.
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ritual entre os Jêje no Brasil: Bahia e Maranhão / Hippolyte Brice
Sogbossi. Rio de Janeiro: PPGAS / MN / UFRJ, 2004.


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